Comecei a trabalhar no setor moteleiro literalmente no século passado. Iniciei minha carreira em 1990, no escritório do Motel Faraós, e por 30 anos passei por três unidades do grupo e por todos os setores. Posso dizer com propriedade: o trabalho é intenso, e a evolução que testemunhei da motelaria, impressionante.

Quando entrei na área, o setor vivia sob desconfiança e o preconceito era enorme: quando eu dizia que trabalhava em motel, a piada já estava pronta. Hoje o motel é visto como uma empresa como qualquer outra. Eu vi essa virada acontecer, departamento por departamento, ano após ano. Por onde começar, então, a contar um pouco dessa história?

Da operação manual à revolução tecnológica

Pela recepção. A recepcionista é, e sempre foi, o único contato direto do cliente com o motel e eu mesma vivi o quanto esse trabalho era diferente do que é hoje. Toda a operação era manual: pagamento em dinheiro ou cheque, com conferência de assinatura. Usar o cartão de crédito exigia uma ligação à administradora, espera pela autorização, passagem na máquina em três vias e envio diário do romaneio. Havia ainda a ficha de consumo da suíte, o talonário de nota fiscal e o atendimento telefônico por uma central telefônica manual. Os filmes eróticos rodavam em videocassete, com fitas que precisavam ser rebobinadas todo dia, ainda que houvesse um mecanismo que as passava automaticamente por 24 horas.

Toda essa estrutura foi se transformando aos poucos e eu acompanhei cada etapa. O videocassete deu lugar ao DVD, depois ao HD, à TV a cabo e a TV por satélite. No dia a dia da recepção, implantamos um sistema que organizava tudo: entrada, saída, fila de espera, pedidos da cozinha. A comanda saía direto, sem precisar ligar e repassar informações, o que reduziu erros e agilizou o atendimento.

As maquininhas de cartão eliminaram as ligações para autorização, os cheques sumiram e o talonário de nota fiscal virou cupom fiscal com QR Code. As reservas, que eram feitas pessoalmente cm o cliente escolhendo a suíte em um álbum de fotos (acredite se quiser) e pagamento antecipado, hoje podem ser feitas pelo site do motel, pelo aplicativo guia de motéis go e por outras plataformas de reserva online.

Quando a publicidade saiu do papel e ganhou alcance digital

Tudo ficou mais rápido e cada uma dessas mudanças eu vi acontecer. A comunicação também se reinventou completamente nesse período. A propaganda era feita em revistas masculinas, a revista Playboy dominava e havia até o Guia dos Melhores Motéis com aqueles famosos quadrinhos das coelhinhas.

O espaço era caro e disputado e o preço subia conforme a capa. Anunciávamos também em jornais, com desconto para quem apresentasse o recorte. Com a internet, criamos o site do Faraós, migramos os cupons para o digital e hoje as redes sociais fazem o marketing alcançar um público que, 30 anos atrás, seria impensável.

Suítes mais sofisticadas, gestão mais profissional

As suítes também mudaram muito ao longo desses anos. Antes eram mais escuras, com muitos espelhos e carpete. O painel era o grande diferencial: da cabeceira, você acionava a iluminação, a TV e o rádio.

Hoje o ambiente é mais clean, com decoração assinada por arquitetos, painéis modernos e automação integrada. A governança seguiu o mesmo caminho: limpeza e organização sempre foram inegociáveis, mas hoje todo o setor conta com protocolos bem definidos e produtos com tecnologia e qualidade muito superiores.

Trinta anos se passaram e o setor que muita gente um dia tratou como tabu se consolidou como um segmento de hospitalidade sério, profissional e em constante evolução. Acompanhar essa transformação de dentro, na prática, foi mais do que um privilégio: foi a minha história na hospitalidade.

Ana Medeiros é coordenadora de eventos da ABMotéis