Durante anos, acompanhei relações terminando dentro da minha prática como advogada com atuação no direito de família. Paralelamente, cresci nos corredores do motel da família, aqui em Mossoró. Foi apenas mais tarde que percebi o quanto esses dois universos conversavam entre si. Eles mostravam diferentes lados de uma mesma moeda: o amor e a intimidade.
Essa ideia não veio do nada. Antes de advogada e de moteleira que acredita que o motel pode ser um ambiente de amor e resgate, eu sou mulher, mãe, filha, esposa e profissional. Sou, como a esmagadora maioria das brasileiras, uma equilibrista de pratos. Cada prato representa um papel que preciso performar e sustentar.
É preciso começar segurando a vareta que suporta o prato da maternidade e ir, aos poucos, equilibrando-a. Também é preciso impulsionar a outra vareta para manter o prato profissional girando de forma centralizada. E, quando o prato do cuidado com os meus pais na condução do motel vai perdendo velocidade, preciso dar um novo impulso sem deixar cair o prato das obrigações domésticas.
São tantos pratos que, se eu não girar rapidamente o da relação conjugal, ele não ganha estabilidade suficiente para resistir às quedas e oscilações. Talvez esse seja um dos grandes desafios das relações modernas: continuar cultivando intimidade em meio ao cansaço, às responsabilidades e à velocidade da vida adulta.
O desgaste invisível das relações
Descobri que a única forma de dançar com tantos pratos é olhando também para o equilibrista que os sustenta. É colocando a música de que ele gosta, enxugando seu suor, oferecendo água entre um espetáculo e outro, descobrindo com que tipo de vareta e prato ele consegue se equilibrar melhor. Talvez tenha sido justamente por enxergar isso tão de perto que passei a olhar para os motéis de outra forma.
Dentro da minha prática no direito de família, tive a oportunidade de ver relações se desfazendo e, raramente, essas relações terminavam por falta de sentimento. Quase sempre o desgaste vinha dos pequenos abandonos cotidianos, das hastes desgastadas, de um punho cansado de sustentar tantos papéis ou de um picadeiro mal iluminado. E o pior de tudo era perceber o quanto ainda havia amor pelo show.
Paralelamente a essa percepção, enquanto fui criada nos corredores do Motel Desejo, pude observar inúmeros casais que escolhiam o nosso espaço para cultivar suas relações, manter a chama acesa e sair do óbvio.
A motelaria como experiência de conexão
Fiquei fascinada! Apesar de muitos enxergarem o motel apenas pelo estigma, eu via casais tentando preservar espaços de intimidade, presença e reencontro. E, se aqueles casais conseguiam manter relações de 10, 20 ou 30 anos ainda cultivando desejo, intimidade e encantamento, então aquele movimento era possível. Eu só precisava descobrir como transformar o motel em um ambiente convidativo e seguro para outros casais que também não queriam desistir do “felizes para sempre”.
E isso não foi difícil. Bastava olhar para mim, como mulher equilibrista, advogada, filha, dona de casa, mãe e esposa, para entender o que eu precisaria oferecer naquela arena circense para que outras equilibristas também conseguissem fazer o seu espetáculo acontecer.
Espaços pensados para o reencontro
Um ambiente limpo, com protocolos rígidos de higiene; treinamento para humanizar o atendimento; a “desvulgarização” de suítes e publicidades; quartos aconchegantes; produtos íntimos com qualidade certificada e de fácil acesso, além de balões, pétalas, velas e uma cozinha de qualidade.
A verdade é que nem sempre conseguimos equilibrar tudo. Mas, se ainda existe o desejo de continuar desempenhando alguns papéis como o de esposa, por exemplo, é preciso facilitar a vida da equilibrista, usar os recursos disponíveis, recalcular estratégias, mudar varetas, músicas e palcos.
E, enquanto a decisão for manter o prato do relacionamento girando de forma estável e consistente, meu eu moteleira consegue atuar. Mas, quando a escolha é ignorar ou parar esse prato, só resta espaço para a advogada familiarista assistir ao desmonte do cenário, ao apagar das luzes e ao começo do fim.
