Essa frase, sozinha, já desperta olhares e curiosidade. É natural, afinal, juventude e motelaria raramente aparecem na mesma frase. Mas a minha trajetória não começa assumindo a gestão do Recanto Motel e nem se resume ao cargo que ocupo. Ela é resultado de formação, vivência prática e continuidade familiar.
Sou formada em Moda e essa escolha influencia diretamente a forma como administro o negócio. A moda, para mim, sempre foi menos sobre roupas e mais sobre comportamento, linguagem e experiência. Trata-se de compreender como as pessoas se sentem nos ambientes que ocupam e como os espaços comunicam. Essa percepção migrou comigo quando passei a atuar na motelaria.
Empreender entrou cedo na minha vida. Aos 15 anos, abri uma loja de roupas, negócio que ainda mantenho. Comecei sem estrutura pronta e assumi todas as etapas do processo: criação, compra, venda, atendimento e gestão. Foi um período intenso e de aprendizados. Ali entendi que empreender não tem relação com glamour. Exige constância, capacidade de decisão e disposição para sustentar responsabilidades.
Empreender antes da sucessão
Essa vivência formou a base que mais tarde me prepararia para assumir o Recanto. Quando recebi o convite para dar continuidade ao negócio da família, senti o peso da história. Meu avô iniciou o empreendimento, meus pais o consolidaram e caberia a mim conduzi-lo em um novo momento. Assumir uma empresa familiar envolve mais do que gestão financeira ou operacional. Implica preservar valores, lidar com expectativas e encontrar espaço para evolução.
O desafio sempre foi equilibrar permanência e transformação. Manter a essência construída ao longo dos anos, mas atualizar a forma de comunicar, de atender e de entregar experiência com a Nova Motelaria. Pude trazer para a gestão um olhar mais atento à estética, à ambientação e à jornada do cliente. A motelaria, quando bem conduzida, não se resume à locação de um espaço. Trata-se de hospitalidade, privacidade e cuidado com cada detalhe.
Juventude, liderança e continuidade
Ser uma mulher jovem à frente de um negócio tradicional também carrega seus próprios desafios. Em vez de enfrentar estigmas de forma reativa, optei por responder com trabalho consistente. Liderança se afirma na prática, na clareza das decisões e na construção de confiança com a equipe. Inovação, nesse contexto, não substitui a história. Ela a amplia.
Trabalhar em família exige maturidade. Ao lado da minha mãe, encontrei diálogo e abertura para propor mudanças. Ter espaço para apresentar ideias, implementar melhorias e acompanhar resultados fortalece tanto a empresa quanto a relação pessoal. Quando há respeito e alinhamento de propósito, a sucessão deixa de ser conflito e passa a ser continuidade.
Entre todas as responsabilidades da gestão, poucas coisas são tão significativas quanto acompanhar o retorno dos clientes. Saber que um casal encontrou ali um momento de reconexão ou que a experiência superou expectativas confirma que o negócio cumpre seu papel. A motelaria toca aspectos íntimos da vida das pessoas. Por isso, requer sensibilidade e responsabilidade.
Propósito e continuidade
Assumir o Recanto Motel aos 23 anos não é apenas um dado curioso. É a convergência entre formação, prática empreendedora e legado familiar. Sigo aprendendo diariamente, ajustando rotas e consolidando processos, com a convicção de que tradição e renovação podem caminhar juntas.
Se minha trajetória puder servir de estímulo a outros jovens que cresceram próximos a negócios familiares e hesitam em assumir essa continuidade, já terá valido a exposição. Honrar uma história não significa repeti-la de forma automática, mas mantê-la viva, relevante e preparada para o próximo ciclo.
