Criada há mais de 10 anos em Santiago, no Chile, aplicativo de reservas MotelNow surgiu para resolver um problema comum aos clientes de motéis: encontrar uma suíte disponível sem precisar percorrer vários endereços. A plataforma reúne fotos, preços, informações e disponibilidade, permitindo que o cliente escolha e reserve online. Atualmente são cerca de 300 motéis cadastrados entre Chile e Colômbia. CEO do MotelNow, Eugenio Saavedra fala a seguir sobre a criação da plataforma e detalha as diferenças entre os mercados moteleiros de ambos os países, entre outras questões. Confira!

De onde veio a ideia de criar o MotelNow?

O MotelNow nasceu em Santiago do Chile há mais de 10 anos de uma experiência que qualquer casal latino-americano conhece: sair numa sexta à noite, rodar de motel em motel e encontrar a placa de “sem vagas”. Percebemos que uma indústria com demanda enorme e presença em toda a região praticamente não existia na internet: não havia fotos, nem preços, nem como saber se havia uma suíte livre, muito menos reservá-la. A oportunidade era clara. Se o Booking tinha digitalizado os hotéis, alguém precisava fazer isso com os motéis, mas entendendo que é um negócio diferente: períodos curtos, decisões de última hora e muita discrição. Por isso, desenhamos uma reserva pensada para o motel com confirmação imediata e um tempo de espera limitado para que o casal chegue com a suíte garantida e o motel não perca rotatividade. Começamos com apoio da Corfo (a agência de fomento do governo chileno) e passamos pelo Imagine Lab, a aceleradora da Microsoft no Chile.

A operação começou no Chile e chegou à Colômbia em 2018. Quais desafios marcaram essa expansão e a conquista dos primeiros parceiros?

No início foi um trabalho muito pesado. Os primeiros anos foram de convencer motel por motel, visitando os donos e mostrando que publicar as suítes não era se expor e sim abrir uma vitrine. Eles me olhavam com cara de “esse rapaz é louco”, mas com o tempo os resultados nos deram razão. No fim de 2017, fui morar na Colômbia porque este negócio se constrói em campo, junto com o moteleiro, e em fevereiro de 2018 lançamos oficialmente o MotelNow em Bogotá. Algum tempo depois somamos Medellín, que hoje é nossa praça mais forte na Colômbia. Atualmente contamos com cerca de 300 motéis entre Chile e Colômbia. Desde os primeiros motéis parceiros, fomos construindo uma oferta mais ampla para que os clientes encontrem alternativas conforme localização, orçamento e experiência que buscam. Para nós, crescer também significa fortalecer a relação com cada motel. Queremos que a proposta dele esteja bem apresentada e que a plataforma se transforme em um canal que traga reservas para o seu negócio.

Na relação com os motéis parceiros, de que maneira a plataforma contribui para ampliar a visibilidade e gerar reservas?

Oferecemos uma vitrine digital onde os empresários podem mostrar suas suítes, serviços, tarifas e diferenciais. Ajudamos a otimizar a ocupação nos horários de baixa demanda por meio de promoções, notificações e tarifas dinâmicas. O que entregamos é visibilidade qualificada: aproximamos a oferta de pessoas que já estão procurando um motel e facilitamos o caminho do interesse até a reserva. Nosso objetivo é que cada motel consiga comunicar aquilo que o torna especial. Além disso, modernizamos o canal de vendas: hoje não oferecemos apenas nosso app e site, mas também integramos os motéis a ecossistemas globais como o Google Hotels. Isso dá ao empresário um canal adicional de comercialização e faz com que o cliente chegue com mais clareza sobre o que está escolhendo.

Quando o app foi criado, as reservas online ainda despertavam desconfiança entre os empresários?

No começo havia uma grande desconfiança. Muitos empresários temiam que um sistema online comprometesse a discrição do cliente ou estavam acostumados a gerenciar tudo em cadernos ou planilhas básicas sem controle de ocupação em tempo real. No início, chegávamos a coordenar reservas ligando para o motel para confirmar a disponibilidade. Muitos motéis não tinham site nem redes sociais, o telefone da recepção era o único canal e a ideia de reservar um motel parecia desnecessária ou até arriscada: para que mostrar as suítes na internet? Havia exceções, alguns motéis com sistemas de gestão (PMS) ainda muito raros no Chile, mas quase nunca conectados ao mundo exterior.

O que levou a essa mudança de postura?

O cliente. As novas gerações comparam, olham fotos, leem avaliações e querem certeza antes de sair de casa. A pandemia acelerou tudo: o motel que tinha presença digital se recuperou mais rápido. Hoje a maioria dos nossos motéis parceiros administra a disponibilidade pelo celular, responde avaliações e faz campanhas nas redes. “O moteleiro passou de desconfiar da tecnologia a incorporá-la à operação e isso é uma ótima notícia para toda a indústria.

Qual retrato você faria da motelaria chilena e colombiana atualmente?

Eu descreveria como dois mercados com identidade própria e muito potencial para seguir desenvolvendo experiências de hospitalidade para casais. Em ambos, os motéis atendem a necessidades muito valiosas: privacidade, conforto e um espaço para compartilhar. O Chile é um mercado menor e mais concentrado com a maior parte da oferta em Santiago e nos principais polos urbanos. São motéis com operadores de longa trajetória e famílias que estão há décadas no ramo. A discrição é um valor central e o ticket médio é um dos mais altos da região. A Colômbia é um mercado grande, diverso e muito dinâmico. Há desde pequenos motéis de bairro até complexos com dezenas de suítes temáticas e uma associação setorial ativa que conseguiu posicionar o segmento publicamente. O motel colombiano é um espetáculo: decoração, iluminação, hidromassagem, salas de jogos e uma concorrência saudável que empurra todo mundo a se renovar. Os preços são mais acessíveis e isso se traduz em frequência de visitas e em um público muito amplo. Algo que os dois países compartilham é a oportunidade de ampliar as ocasiões de visita. Um motel pode ser o lugar para celebrar um aniversário de namoro, surpreender o parceiro ou simplesmente descansar e aproveitar um momento fora da rotina, sozinho ou acompanhado.

Onde estão hoje os maiores desafios para os motéis desses dois países e que oportunidades podem surgir a partir deles?

Vejo três desafios em comum e, em todos eles, também uma oportunidade. Um dele é recuperar e ampliar a demanda. A pandemia bateu forte, sobretudo na Colômbia, e o setor ainda está recuperando os níveis anteriores. Ao mesmo tempo, surgem novos substitutos como apartamentos por hora ou por diária. A resposta é parar de competir só por preço e vender uma experiência que nenhum apartamento consegue oferecer: design, serviço, gastronomia, privacidade. Outro ponto são os custos e operação. Energia, insumos, pessoal e manutenção subiram mais rápido que as tarifas, o que exige mais eficiência nos processos, automação e uma gestão inteligente de receita. Por fim, é preciso conquistar as novas gerações. Os clientes jovens não buscam só “uma cama por falta de espaço em casa”, mas uma experiência sensorial, estética e memorável como lugares instagramáveis, design contemporâneo e processos de reserva 100% digitais e sem atrito. Isso exige presença digital, reputação online bem cuidada e, sobretudo, uma mudança de narrativa com o motel sendo um lugar para o casal e também para celebrar e descansar. Esse é o espírito do Movimento Motz que impulsionamos junto com o Guia de Motéis.

Na experiência do MotelNow, que estratégias têm funcionado melhor para atrair novos clientes e estimular a volta de quem já conhece os motéis?

Há cinco estratégias já comprovadas nos dois mercados. A primeira é aproveitar o calendário de datas comemorativas. No Chile, o Dia de São Valentim, celebrado em 14 de fevereiro; na Colômbia, o Dia do Amor e da Amizade, em setembro; e, nos dois países, o Dia do Motel são oportunidades para impulsionar as reservas. O ideal é posicionar essas ações em dias que normalmente registram baixo movimento, transformando períodos mais fracos em alguns dos melhores resultados do ano. A segunda estratégia é garantir presença digital em todos os canais relevantes. Hoje os casais fazem suas escolhas pelo celular, por isso o motel precisa estar onde eles procuram: em plataformas de reserva como o MotelNow, no Google com o Perfil da Empresa atualizado e presença no Google Hotels; além de manter o site e as redes sociais em dia. Esses canais também funcionam como vitrines para apresentar novidades, novas suítes e promoções. Outra frente são as parcerias com influenciadores. Essa estratégia já está bastante consolidada e apresenta bons resultados. Criadores de conteúdo mostram a experiência de forma natural e ajudam a alcançar públicos que talvez não conhecessem o motel. A quarta estratégia são os programas de fidelidade. Oferecer incentivos aos clientes que retornam é uma maneira eficaz de atrair consumidores e, principalmente, fortalecer o relacionamento com quem já conhece o motel. Por fim, vale repensar a comercialização do tempo de permanência. Estender os períodos diurnos e oferecer opções de estadias mais longas permite que os casais passem uma tarde no motel, em vez de limitar a experiência a algumas horas. Essa iniciativa tem apresentado bons resultados.

O Dia Nacional do Motel ganhou espaço no calendário colombiano e se tornou uma iniciativa importante para o setor. De onde veio essa ideia e que impacto ela alcançou?

Já tínhamos promovido um Dia Nacional do Motel no Chile e, em 2018, como prelúdio do mês do Amor e da Amizade, levamos a iniciativa para a Colômbia com um objetivo claro: criar uma data no calendário comercial que celebrasse uma indústria que gera milhares de empregos e faz parte da cultura latina, assim como existem datas para a gastronomia ou o turismo. Queríamos trazer o motel à luz pública e gerar conversa positiva nos grandes veículos de imprensa. O impacto superou todas as expectativas. Nessa primeira edição e nas seguintes, conseguimos cobertura massiva em TV, rádio e imprensa nacional. Realizado em um dia de semana, os motéis participantes chegaram a triplicar a ocupação habitual, e no MotelNow, vimos aumentos de reservas de mais de 400%. O valor vai além das reservas daquela data, pois a iniciativa aproxima novos públicos e gera conversa sobre o papel dos motéis como espaços para aproveitar.

Depois de conhecer de perto a motelaria brasileira durante o Motel Xperience 2026, que aspectos mais surpreenderam você?

A experiência em São Paulo, durante a Equipotel e o Motel Xperience, foi inspiradora. Tivemos o privilégio de viajar com a equipe do MotelNow e com uma delegação de moteleiros do Chile, Colômbia e Costa Rica. Compartilhar com eles e com colegas brasileiros e mexicanos foi muito enriquecedor. São encontros que permitem aprender, trocar ideias e fortalecer os vínculos da indústria na região. O que mais nos impactou na motelaria brasileira foi o nível de profissionalização, escala e infraestrutura. Fiquei impressionado com a combinação de criatividade, investimento e organização. Visitamos motéis com suítes espetaculares, piscinas privativas e tetos retráteis. Além disso, têm uma gastronomia de nível de restaurante internacional. Também me chamou muito a atenção o trabalho por trás dessa experiência: os processos, os equipamentos e a especialização dos fornecedores. O Motel Xperience permitiu ver todo esse ecossistema reunido. A visita teve ainda um significado especial por esta nova etapa do MotelNow como parte do Guia de Motéis. Estamos entusiasmados em nos somar a uma visão que reconhece todo o potencial desta indústria. Todos voltamos para casa cheios de ideias e motivados a seguir elevando o padrão da indústria em nossos países.